Início de mês, roupa humilde (surrada mesmo)... sem bolsa grande para não chamar atenção dos ladrões, usava apenas por dentro da roupa, imperceptivelmente presa por um elástico na sua cintura, uma bolsinha de pano com zíper para depositar a quantia que retiraria. Era assim que costumava sair para receber a sua aposentadoria.
Estacionou o carro numa praça no centro da cidade. A caminhada de ida e volta a agência bancária faria bem.
Aproveitou para comprar verduras fresquinhas na feirinha. Seguiu com a sacola em punho.
Sem maiores vaidades, a senhora de mais de sessenta anos não se incomodava em parecer pobre, paupérrima. Sabia que os maiores valores que possuía, encontravam-se guardados intriscicamente.
Estava distraída, olhando as vastas vitrines do comércio, até que uma pulseira chamou a sua atenção numa loja de bijouterias. Resolveu entrar.
Ao agachar-se em frente ao balcão para enxergar melhor, junto a uma elegante cliente que estava escolhendo uma peça nas mãos da vendedora, escutou a conversa em alto tom: "essa mulher, toda mal arrumada deve ser uma ladra! Estava olhando para a minha bolsa! Melhor colocar essa mulher para fora da loja!" A vendedora olhou com indignação para a senhora, afastando sua "aparente aquinhoada cliente" para um lugar sem o perigo eminente da suposta ladra.
Envergonhada por passar por tamanho constrangimento, a senhora retirou-se da loja sem pensar duas vezes ou retrucar.
Chegou em casa chorando... nem sabia como conseguiu dirigir até lá! Contou a filha e netas o ocorrido.
Indignada, a filha pensou em ir até a loja, gritar, brigar, exigir desculpas... mas achou melhor postar nesse blog o seu desabafo, e deixar nas mãos de Deus para que dê a resposta e a justiça ecoe.
Essa senhora acima descrita é a minha mãe. Esse fato, infelizmente, é real.
Diante ao eloquente púbito de algumas vidas, compadeço-me...
De onde vem tanta força vazia de vaidade exacerbada, que preocupa-se somente em mostrar que tem?
Será que a inteligência divina criou a existência humana e todo o espetáculo da vida para que o ser hominal desenvolva o vazio de uma projeção inalcançável, onde o único bem que impera é o bem dos próprios bens?
E quão tolos são os homens que curvam-se mediante ao império do poder sem medidas, que aplaudem e incentivam a deterioração daqueles que acham-se máximos e jamais ressentem-se ao tirar o pouco daqueles que quase nada tem.
"Minha cara, essa é a realidade da vida..." Vida??? Vida para quem? Injustiça, arbitrariedade, valores distorcidos, ganância, desumanização???
SOCORRO!!! Parem, por favor, esse cipó... eu quero é sair dessa selva de pedras!!!
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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
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