Sabe aquela família em que todos se abraçam verdadeiramente? Aquela família onde a compreensão é mútua e a bem querência reflete-se na prática do auxílio e apoio de uns aos outros? Onde a verdade pode ser dita com educação e sem medo de magoar? Onde o sucesso de um é aplaudido por todos e o fracasso corriqueiro é sentido por todos, da mesma maneira? Onde a dor e o sorriso são compartilhados?
Pois é... eu morro de inveja!!! Acho que é a única coisa no mundo que me causa comichão de inveja... ahhh... como eu tenho inveja de quem tem um pai de verdade!
Mas, Flávia... você não tem um
PAAAAIII? Sim, sim, eu tenho um...
p a i .
Tenho um pai que, no passado, sempre foi presente financeiramente, mas, até hoje, a paternidade presencial foi desastrosa.
Casado com a minha mãe por 25 tórridos anos, nunca teve tempo para as coisas da casa porque o trabalho o consumia demais. Só entrava com a "verba". Afinal, "isso é tudo o que um homem deve fazer!"
Durante esses 34 anos de vida não lembro de um elogio sequer oriundo dele. Sempre críticas destrutivas.
Quando mais nova, ainda tentava agradá-lo. Tentava satisfazer a sua vontade no tato, dentro das minhas possibilidades, mas nunca consegui. Hoje em dia já não tento o agradar mais! Quando muito cansada de suas cobranças, me afasto, não atendo seus telefonemas, nem o procuro... deixo o silêncio ecoar até recompor as minhas forças e auto estima. E assim vou levando...
Para ele, sou uma pessoa sem qualidades, sem ganância ou grandes perspectivas na vida, que fez péssimas escolhas. Ter engravidado cedo foi uma catástrofe, ser gordinha sempre foi motivo de vergonha... Se trabalho, as empresas estão aquem o merecimento da minha dedicação, se estou em casa, sou imprestável, acomodada... se fico solteira, estou muito solta e quando estou casada, não soube optar. Sou "humilde demais" por tratar a todos com carinho e indistintamente, e a minha forma de escrever o desagrada, é incompreensível. VÁ ENTENDER!?!?
Incentivo? Nuca tive da sua parte. Tudo, absolutamente TU-DO o que fiz até hoje foi motivo para criticas acintosas, sem a menor ressalva ou respeito.
Alguma pessoas que conhecem-nos, perguntam porque não o respondo a altura... porque deixo ele exigir que eu seja um molde indefinido para satisfazer seus anseios? Eu digo que é por respeito. E é mesmo! Sei que ele não sabe dialogar e qualquer tentativa de contradizer "as suas verdades absolutas" seria motivo de declarar guerra e, no final, não mudaria nada.
Respeito ele como genitor, como contribuinte de cromossomos para a minha existência, como ser humano, como homem mais velho do que eu. Eu o respeito e respeito também a sua liberdade de expressão.
Tenho um grande respeito por ele, coisa que nunca tive da sua parte. E não exijo nada, nadinha. Posso até "querer" intimamente, mas não peço nada, não dou palpite na sua vida e nada exijo. Não exijo que seja menos grosseiro, não exijo colo, não exijo compreensão, não exijo que deixe de ser alcóolatra, não exijo solução para os problemas que ele teima em enumerar, não exijo que pare de me subestimar, não exijo presença e nem educação. Seria bom que tudo isso ocorresse, mas não exijo.
Penso que cada um sabe como desempenhar o seu papel, e só é capaz de dar exatamente o que tem... é por isso que não exijo. Só peço a Deus para me fortalecer... você não sabe o quanto preciso!
Desculpem o forte desabafo e tristeza exposta. Mas tem coisas que, quando não externadas, inflam e machucam mais.
Espero que esse meu incômodo sirva de exemplo para que você, que me lê nesse momento, perceba o quão machuca a ausência e intransigência de um membro da família. E que, muitas vezes, o silêncio não é sinônimo da ausência de dor, fraqueza ou covardia. Muito ao contrário. :'(